na quarentena forçada em meu quarto uma solidão dimerizável sem controle avança enquanto escureço. cresce conforme quer, retira-se quando recorro a amigos, encolhida corcunda dedos rápidos cabeça ofegante não estou mexendo quase parte nenhuma do corpo. transpiro ansiedade e como depressão, a comida me dá enjôo com os novos remédios, a comida preferida tem gosto de cinzas. numa interação digital envio uma cara chorando de tanto rir que me respondem com uma cara com dois corações no lugar dos olhos. não me acostumei a ver amigos muitos nem sempre. fazer amizade comigo mesma se tornou um alívio, é processo já iniciado. quero escrever que estamos quase íntimas mas troquei o espelho para um canto do quarto em que corro menos risco de trombar comigo. deitada na cama sem pés, colchão no chão de madeira, vejo o reflexo da luz amarela que explica cada móvel, peças de minha época de escola. tenho lido livros guardados desde o ensino médio em busca do tempo perdido em passatempos inúteis, quando meu cérebro era uma esponja e se debruçava sobre sujeiras que pouco me qualificaram para enfrentar a dureza de uma pandemia. sei dosar quanto de notícias assistirei, quantas páginas lerei, quantas horas de pós-graduação on-line e quantos quilos de chocolate derreterei, mas perco a mão estupidamente quando me adentra um bocado voraz de solidão. apago a lâmpada principal e crio aconchego de abajur, tomo o banho mais quente que minha pele suporta e escrevo uma carta de amor de próprio punho em comemoração a um ano de namoro com o menino mais encantador que conheci. já tentei sarar fazendo as unhas, polichinelos, cantando, apertando meu cão contra meu colo. já tentei sarar lavando a louça, doando o desnecessário, me masturbando, ouvindo elza soares. já tentei sarar vendo vídeos sobre todo desconforto psicológico e associando meu quadro a minha época, minha infância, meus genes e meus hábitos. segundo o teste de personalidade big five realizado hoje, tenho motivos para me orgulhar de mim e de fato estou orgulhosa de algumas coisas que tenho feito. já tentei agir como se fosse tudo fantasia e fui genuinamente feliz por dois dias seguidos. deito-me aquecida ao lado de um copo d’água sem cor, sem brilho, sem gosto. é o maior milagre do mundo, água é o mesmo que mãe. abraço um travesseiro do tamanho de uma pessoa e busco por acidente o pé de meu namorado com os meus. faço um carinho proposital na parte interna de meu antebraço e procuro dissolver-me em sono. o tempo irá passar e mais cedo do que imaginava os amestradores raios de sol iluminarão cada pedaço dessa prisão. se apenas eu conseguir adormecer.
no quarto do menino não havia TV e quando a meninaficava lá eles eram obrigados a fazer beijos abraços lambidas carinhos suaves e pesados eles eram obrigados a se morder e raspar até a pele e os ossos os músculos cansarem. à noite eles se deitavam como fios de fone de ouvido em nós difíceis de desfazer e respiravam ora silenciosa ora sonoramente em composições de dois instrumentos, o nariz e as sujeiras. acordavam, gemiam num único staccato, adormeciam. antes do quarto sem TV ocuparam o menino e a menina assentos no mezanino do teatro ao lado das câmeras muitas que filmavam a orquestra que eles não sabiam mas tocava num dia muitíssimo especial e as senhoras ali iam de vestidos longos e coques e os senhores ali pressionados em cintos e gravatas acenavam olá mas o menino vestia seu tênis de andar em trilha e a menina bateu palmas quando entrou o violinista que apenas dava o lá. entre movimentos o menino complementava as partituras com toques de seus dedos nos fios da barba em seu rosto, não eram barulhos eram música, qualquer tempo em que se juntassem à sinfonia tornavam-na melhor. o menino dividia de bom grado a regência do maestro com seus sons de inspirar e mudar a disposição das pernas. a menina ouviu com importância e julgou que tudo estava barbaramente harmônico. no dia seguinte do quarto sem TV a menina levou de sua casa para a casa do menino: 1 unidade de vinho tinto 1 unidade de queijo chancliche ao que juntaram tudo isso com outras coisas de comer como pistaches, porque o menino tinha com eles incrível afinidade, como macadâmias sem torra e sem sal, porque a menina não encontrou as torradas e salgadas, depois perguntou ao moço que as vendia se havia, ele disse que sim e a menina disse, não quero. comeram com temperos regaram com limão o que mastigaram ao som de vinil no toca-discos que tinha seus macetes de manuseio, um aparelho que só tocava para quem tinha vocação nos dedos. o menino tinha jeito nas mãos e despejou o sauvignon em copos de beber água que harmonizaram perfeitamente com tudo o que vinha acontecendo ali. ele disse, esse é suavignon e a menina riu. retornaram então ao quarto sem TV, viram o filme de si livre de quaisquer outros personagens. sumiram com o figurino fizeram dos álbuns de jazz salvos no spotify seus figurantes, beberam água de vez em quando para unir as cenas. cansaram de tudo isso já bem tombados de thc e enrolaram-se nos fios de fone de ouvido, a menina esmagada na parede o menino esmagando a menina demais. a menina acordava esmagada e pensava, isso é o máximo.
devoro aos finais de semana uma carcaça que muito me delicia nos cheiros e na cara ardida que tem. falamos de muito assunto besta. falamos de computadores e a paliação do sistema de cotas. depois, rimos de nervoso e antecipação e, até que enfim, nos deitamos em disposições pecaminosas, após as quais resto amarga. termino com mais fome do que antes de começar a comer. não raramente volto a me perguntar por que dou início a essa intoxicante comensalidade. sinto-me indisposta a fazer parar também. abstinência é grave e consciência roda tonta ao fundo da garrafa de cerveja que dividimos. procuro um arroto propício à semeadura. termino encharcada com os olhos secos. no caminho de volta, numa caixa de metal com pneus de borracha das árvores, dirijo observando plantas que se desenham dizendo quem são. cresceram em tal direção pois lá se derramava mais sol, dobraram para qual lado o vento empurrasse com maior firmeza e hábito. não sei o nome de nenhuma delas, se são acácias ou oliveiras ou marias eduardas, se seguram flores para daqui mais mês ou se irão apenas esverdear. mas entendo num elã que não são trepadeiras. rompem o solo sozinhas e sustentam-se por décadas num silêncio revigorantemente independente. ascendem com água, oxigênio, luz e nada. numa caixa de metal com pneu sangrado das árvores pergunto-me se este fruto que conduz é daqueles que tombam do alto para nunca vingar. pode ser que seja só isso. volto em cama de casa, cama antiga de colchão dobrado segundo meu peso, moldada para acomodar-me sozinha. fecho os olhos, quero fechar a janela mas já deitei, fecho a alma, engulo pontinhos de luz do quarto que saem dos eletrônicos. sinto-me máquina de fazer esfregação. quero pertencer como os flocos de algodão antes da colheita, espalhar hormônios bonitos pela coluna de ar sem mira certa sem contraparte. mas só tenho o depois, lençol de tecido lavado sem rasto de vida ou morte. gostaria que isso soasse menos grave porque no cotidiano minha cabeça é na verdade confusa, não tão palavrosa nem um pouco enraizada. decerto um sonho de adeus fará despertar finais no próximo contato, preciso ir, não há nada em você, tenho muito a fazer, não pudemos encaixar além de partes físicas, não me chame mais. guarde-me em sua memória como um girassol apaixonado pela lua, lançando sementes ao concreto, bebendo aos joelhos do que vem de cima.
sexta-feira, 22 de março de 2019
deixo de dizer coisinhas num impulso de soterrar encolho os termos o ombro direito mais pensei que falei mas foi um respiro espero a hora de tornar-me nascida exterior e proclamada aguardo e sem dar um pio relaxo o trapézio gemendo mentalmente é o lado de meu pai a naturóloga explicou que é mais pesado preciso alinhar-me com ele então o ombro direito fará silêncio canto o dia inteiro tenho a certeza os vizinhos me odeiam escolho as músicas menos agudas para não aguentar e tocar as mais na hora de gritar desafino se estou no carro acerto imagino os vizinhos ressentidos deixo a voz quebrar perguntavam o que seria quando crescesse eu dizia artista plástica uma mulher riu chamou-me pobre minha mãe riu com ela era cliente pensei que minha mãe pensasse também que arte era ofício de falido falei mesmo assim muitas vezes depois que seria artista quem sabe uma escritora ou cantora escondida agora nos bolos e pratos falida pensando na cliente na impecável educação de minha mãe lembro-me da risada baixa minha conta no vermelho ela acertou sou como os besouros no concreto erguendo vinte vezes meu peso um dedo humano poderia petelecar minha carga para longe mas um humano não consegue erguer metade de seu próprio peso sou como os besouros de barriga para cima esperneando mudo o mundo muito pouco ninguém me vê ou ouve mas aqui estou me contorcendo arrumo ao menos memória alinhada acúmulos dos meses próximos quero expressar-me até o fim é impossível dizer o que tenho então apenas sou insatisfeita e contemplada dissonante do que persigo muda como as sementes na chuva pronta para quase falar
o menino que eu namorava no ensino médio é hoje amigo aos finais de semana quando saimos correndo em volta do parque com lagoa na cidade. na volta ele classifica minha troca de marcha quinta para quarta como imperceptível e digo a ele, o dia está pago. depois constatamos juntos a baixa umidade do ar. quando menores achávamos nada disso nos assuntos, fico perguntando sozinha do que conversávamos. não era tanto sobre comida nem empregos difíceis, parecia mais sobre coisa pior, vidas não nossas e uma vantagem no outro que não tinha par conosco. era euforia e conflito e risada e leveza e hoje é tudo isso ainda mas menos. somos bolsas de graça dilatante, cada vez mais fracas por esticar e crescer. digo a ele que não aguento correr doente assim, ele daria duas vezes a volta mais longa. tusso, espirro, coço os olhos minúsculos chorando sem tristeza e ele aguenta o todo, minha lerdeza e quando falo muito e quando falo negatividades que todo mundo evita porque cada um já tem sua montanha de dores para curar. digo a ele e ele encontra um lado bom. não aguento correr seguida e penso em subida que pode ser melhor se escalarmos a montanha em lugar de tentar levá-la nas costas.
meus ombros se enrugam para cima e meus joelhos entortam para dentro. ele corre como se estivesse comendo claras em neve assadas com açúcar. fala baixo, ele fala pouco e suave. e foge de dentro de meu carro quando o passeio termina, deixa-me drogada com fomes. faz a semana dele, enquanto a minha some. no próximo encontro a gripe está sarada e nossos corpos irão esticar e crescer, formigar e doer, esquentar e correr.
ontem meu namorado que não é meu namorado chamou a ariana grande de gostosa. durante a reunião de amigos ele parou no meio, gost–. a raiva que sinto quando penso nisso é a mesma raiva que eu gostaria de ter ao acordar amanhã, segunda-feira, uma raiva que me formigasse cama afora para trabalhar e me concentrar tanto no importante que a ariana grande sumiria, minúscula. quando penso nisso é uma raiva danada. é uma raiva danada porque parou no meio, ficou palavra detida, estourou igual bexiga enchida errada: infla rápido e explode em silêncio imbecil. imagino ele dizendo um gostosa por inteiro, boca cheia e orgulhosa, gostosa. com os amigos, bebendo cerveja, gostosa. lançou a música e ela nem é tudo isso mas esse single ficou ótimo, gostosa. fiquei ali sem saber o que clamar. alguém riu, ele mesmo riu, como se não fosse desrespeito, comigo ou com a ariana grande. é difícil inspirar um homem a entender que as questões vão além dele, do pau dele, que isso está em todo lugar e há muito a perder nessa conduta. é difícil expirar. tanto é assim que fiquei preguiçosa, ou omissa – o resultado é o mesmo –, sorriso sumiu entrou no lugar um vazio triste. meu namorado que não é meu namorado perguntou se eu estava bem, que sensível, ao que lhe respondi com a cara mais amarga que a mulher consegue amenizar, tudo bem. gostosa. pediu-me que colocasse o single para tocar, neguei insistência após asfixiante insistência. sufocado, perdeu-se esse momento em meio a outros menos ou mais relevantes, quando voltei da cozinha munida de bolinhos de carne estilo oriental espetados em pauzinhos de madeira. o meu protagonista realçou, quantos palitinhos. respondi sem direcionar o olhar, é um para cada merda que um macho fala. alguém riu. não sei se ele riu. a carne estava gostosa. depois só fiquei ali, longe. sinto não saber me colocar, não saber meu lugar. bebi e fumei meus problemas. não sei se quero um namorado que não me namore se for assim. sinceramente pouco me sinto no direito de amá-lo, já que pobremente amo a mim mesma. abandonei a reunião e sumi para dormir, sem boas noites educados. apenas desapareci. aceito ser a ciumenta. aceito ser a pelo em ovo. aceito ser a galinha. aceito ser a triste, a louca, a ingrata, a insegura. aceito o que tiver de me classificar para contar de mim quando isso acabar. aqui está, eu sou real. e eu sou imensa.
sonho com um amor que me tome por amigo quando eu chore me cubra com braços e com lábios que não digam meu nome inteiro sonho com um amigo que me fale o que esqueci e solte-me quando souber que nos tornamos nocivos ou menos que estranhos sonho com um desconhecido que oferte o familiar comida casa e suor que me veja maior que me penso depois me faça enxergar sonho com a gratidão de lembrar do tempo quando queria o que tenho sem o próximo segundo sobrar feliz