quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Glicínia

É assim que te vejo
Você indo embora
Com o futuro nos ombros 
A criança nas costas
Pra longe e devagar
Floresta adentro

Você é a semente e você é o fruto

As plantas vão crescendo 
Em câmera lenta
O caminho antigo repisado
É o mesmo lugar mas menos cuidado
É menos verde 
Tem menos gente
Eu te observo absorvendo o pouco ar


E rego pra tentar te acompanhar

Seus sapatinhos grandes
Roupa escura

Um corpo fino
Escapa em meio aos outros troncos
Um sol tardio e recolhido
Será que ele vai tentar
Me tirar da terra

E rezo pra que venha me podar


Floresço pra que venha me cheirar
Transpiro pra que venha me beber
Entorto pra que venha segurar
Dilato pra que venha me olhar
Orvalho pra que venha me aquecer
Bem me quer mal quer-me bem que mal faria me escolher

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Texto medíocre de blog ordinário

     Uma puberdade aos 22 chega gritando manso e jura sem convicção nunca me ensurdecer. Não lancei livro nem álbum nem menu, nem uma carreira eu comecei a construir e peguei DP por falta na minha disciplina favorita. Invento que quero tirar fotos e fazer cirurgia plástica. Invento que vou num templo budista respirar de olho fechado e ver alguma luz salvadora que supostamente já está dentro de mim. Invento que vou mudar meu quarto, tirar essa Hayley Williams da parede e procurar meu próprio jeito de cantar. Invento tirar as roupas da gaveta e sintetizar tudo numa arara, vi num documentário que pessoas que possuem 33 peças de vestuário são mais felizes.
     Depois de uma cadeia de relacionamentos aprisionantes, dirijo mais pensando que dirigindo, penso mais do que respiro e penso num silêncio absoluto. Concluo que não tem jeito de ser o artista que se debate em mim quando tenho tão pouco de interessante para falar. 
  Naquele mesmo documentário uma mulher muito feia e inteligente explicou que por mais que se diga que andamos humanos muito materialistas, de fato nunca o fomos tão escassamente. Minhas blusas baratas mudam para papelão na primeira lavagem e a cada bimestre sou forçada a comprar um novo cabo auxiliar para ouvir música sem chiado. Não sei de memória a textura de uma rocha na beira da praia, nem dos dedos da minha avó, porque tenho medo de tocá-la.
     Não sei se o que me assusta é o velho ou o humano.
     Ao final dos meus seis meses de antidepressivo, atiraram-me bem no centro de 2017, completamente lúcida e agora com força de trabalho, para confirmar aos meus pais que sou essa inútil com sanidade e uma ótima moral. Leio sem parar, observo os homens todos, treino e vasculho meus talentos e tento não cair na síndrome do Instagram organizado. Volta e meia acordo com um pedaço de plástico na boca e só desengasgo deletando uma foto que, apesar de minha, não mais me diz respeito.
     Assisto no YouTube um comercial impulável de creme depilatório, filmado por homens dizendo que a mulher pode ter a aparência que escolher. Que o bonito é ser do jeito que ela escolher. A mulher que se depila é loira, magra, feliz e já está depilada. Quando o comercial acaba assisto a um vídeo Minha Experiência Com Silicone e confirmo: é isso que quero fazer.
     Há mais incoerências sob os meus pensamentos que apartamentos no centro da cidade.
     E não muito distante dorme um corpo no qual eu também inventei amor. É um amor difícil, porque não falamos a respeito. É um amor difícil porque estamos igualmente jogados na dúvida e na imanência de algo melhor, fingimos desaperceber que somos todos o mesmo fodido, procurando liberdade num maço mentolado e tombando a ponte até virar muro.
     E com tudo isso borbulhando, transbordando e espirrando quente na minha cara, ainda cozinho para descascar-me num fruto que me sacie. Ainda canto para balancear minha pobre oratória. E ainda escrevo porque se não o fizer é certo que morro ou mato alguém.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Milagre surrado

Idade só é calo e
conformidade e,
conforme for, eu
vou do teu lado mas,
se melhor for,
faço-me afastado.
Formo esse fim tal
qual fosse um quadro,
pinto em carmim
um sangue abstrato.
Aprende minha dor,
aprendo teus fatos.
Pendura-te em mim e
te prego no quarto.
Para ali deixar-te,
um crucificado
atado a seus modos,
maduro e cansado.
E como de praxe,
de pranto me lavo,
de tanto que planto
sou fruto pisado.
Por fim forjo peça
de todo cuidado,
somos breve verso
fotografado. E
é de obra e de arte este
porta-retrato.

CarneOficina

Todo homem eu faço de ventre
Para ser lavada no vigésimo oitavo dia Infecunda
Insegura
Vagabunda
A secura em minha boca enquanto beijo é para irrigar outro lábio
Um menos eloquente
Insolente
Subjacente
Todo homem eu rasgo no dente

terça-feira, 14 de março de 2017

Entrevista com o Universo

    Num dia de semana, enquanto o sol brasileiro queimava minhas panturrilhas não depiladas e mal dispostas no encosto do sofá, acometeu-me, tal qual uma visão sagrada, o Universo. Ele mesmo, sem forma nem voz, tão ameno quanto insuportável. Sentou-se ao meu lado, agora não lembro se também no sofá ou na dobra interna de minha orelha, e ordenou-me fazer-lhe oito perguntas. Pediu que eu fosse pertinente e honrasse sua inusitada boa vontade, ao que confeccionei essas imbecis indagações, um pouco minhas e espero que de mais alguém, servindo o milagre para algo. Fique a par quem desejar dessa inverossímil tarde de terça-feira e sua incasualidade.

P: A vida é uma coisa boa?

R: A vida pode ser uma coisa boa. Bom e ruim são construções humanas e delas abstenho-me visto meu caráter invariavelmente neutro. Não é de importância para mim se um namoro terminou, se uma nação foi extinta ou se uma vegetal rompeu a barreira do solo. Mas há, sim, um enorme número de coisas boas sobre a vida, quando se é uma pessoa, e enxergar esse fato não é habilidade de tudo o que respira, tampouco uma obrigação.

P: Qual premissa faz com que você mantenha a Terra um planeta que existe?

R: A Terra é um planeta muito singular e defeituoso, seria uma pena vê-lo acabar a qualquer momento... (risos). A verdade é que o acaso estendeu-se por tempo o suficiente e o que agora temos é uma configuração minimamente complexa e caótica. As hierarquias e prioridades moldaram-se de tal forma, que a espécie humana julga-se acima das demais em inteligência e natureza. Drenando os recursos comunitários para poucas mãos e alienando uns aos outros através da ignorância, é depositada cada vez mais importância em detalhes desimportantes. A tecnologia faz exponencialmente mais por eles e, na contramão, o contato com o real diminui. Há também os que tentam abster-se disso tudo numa falsa moral e negam o que há de mais selvagem em si. É realmente insustentável. Mas, em suma, não há premissa. Se a Terra ainda existe é um acaso.

P: É possível reverter a miséria humana?

R: É possível passar dez minutos debaixo d'água? Eu diria que sim. Mas qualquer um sairia com vida? Seria uma experiência frutífera? A miséria humana, por penosa que seja, permeia a personalidade de todos vocês. O erro. A própria evolução vem do erro, confusões genéticas criam variação e o mais forte sobrevive. O erro fortifica e é o caminho mais seguro. É possível, porém, encaminhar essa miséria para onde mais beneficie os sistemas.

P: Conceitos como amor, arte, saudade e perversão podem ser encontrados em outro local que não a Terra?

R: Desculpe-me. Não estou apto a responder essa pergunta. Ou talvez você não esteja apto a lidar com a resposta.

P: O que é arte?

R: Falar sobre arte é como escrever sobre uma tempestade. Há muito que os termos não conseguem conter. A própria sensação, intrínseca à arte, é mais do que palavra. Dentre outras muitas coisas, arte é um modo de sobrevivência e uma obsessão inerente ao humano. Existe justa polêmica entre vocês sobre o que pode ser classificado sob a qualidade artística ou não. Se me permite, compartilho da experiência empírica minha peneira fina contra a dúvida: arte é um apanhado de atenção em meio à restante distração. A arte pode ser ou não bela, pode ser simples ou complexa, tradicional ou inventiva, de vanguarda ou nostalgia, fresca ou a mofar. O mandatório é que surta efeito motor em quem com ela interage, mesmo que uma breve, até brevíssima, percepção do arredor ou, queiramos nós, de si próprio.

P: A religião é, necessariamente, uma falsa moral?

R: Atrelar religião a qualquer adjetivo ou definição não compete a mim, que já me expliquei neutro, mas a vocês, enquanto humanidade e individualmente. Em termos simples, a religião é o que você dela faz. Parece-me que alguns anos atrás coisas fantásticas sucederam-se, e assim pôde-se documentar em livros, hoje colocados em instância máxima e quase política nas doutrinas. São esses documentos tão primitivos quanto atemporais, tal o grau de universalidade de seu conteúdo, podendo-se pensar que fossem, então, mais de expressão artística e menos de narração fiel e preocupada. Tamanho foi o impacto dessas palavras e tantos os anos até aqui, que cada homem de poder moldou o que leu para melhor organizar, lucrar, cuidar ou até calar, conforme seu julgamento. Se a religião é uma falsa moral, foram vocês que assim o fizeram.

P: Quando algo se torna real?

R: Quando alguém nele pensa.

P: Isso basta?

R: Para tornar-se real? Sim. Para tornar-se percebido, não. Talvez a pergunta seja: o que é real? Mas você já usou suas oito perguntas.




quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Humanos não falam

   Você não percebeu que eu tinha morrido.
     Embaixo da fundação eu gritei até a terra me engasgar. Mas você dormia em outro continente, não pôde ouvir.
     Pedi para as minhocas me levarem até a superfície, Ou um copo d'água já estaria ótimo, eu disse, mas elas não deram ouvidos e trocaram os pés pelas mãos – ou as mãos pelos pés? Eu de cabeça para baixo no escuro molhado.
     Com dó de mim, os fungos conversaram entre si, Façamos o que podemos, o que sabemos. Eles beberam meus mucos e ceiaram minha testa, lamberam os ossos e deixaram o coração para o fim. Essa parte está dura, eu ouvi de um deles. E pensei, Como é bom estar morta e enterrada para você. Quem de nós mais se beneficiou?
     Eles me fluidificaram e me fizeram microeu, e sem escolha fui sugada por uma raiz adjacente. Subi por túneis de seiva e miniaturas de artéria em verde claro. Obrigada, fungos, eu disse. Mas não saiu voz porque micróbios não falam.
     Depois um azul no céu se escancarou em minha frente quando desabrochei pela manhã em cinco pétalas burras. Um azul que eu reconheci em cada tom. Eu conheço toda nuance dessa paleta, azul é como uma língua nativa para mim.
     Brotei em seco e esperei a chuva.
     Mas só veio você me procurar.
     Sem saber do processo, buscou por minha forma humana e zangou-se ao encontrar sequer os restos. Depois de tantos anos, veja você, o que esperava de mim?
     Flores também não ouvem som, não vêem coisas.
     Mas o seu corpo bípede vibra unicamente, nada escapa por completo da natureza. Sei que eram seus pés e, quando você chorou, fez-me aumentar.
Você me escolheu e me colheu num impulso de misericórdia: Que florzinha insistente, você pensou alto, e eu encolhi, fraca e lilás. Só não me devore mais essa vez, já sou tóxica. E não me leve para casa, morrerei sob sua vigília num copo com água e cloro.  
     E não posso morrer de novo. Não posso morrer de novo. Não me mate sem perceber de novo.
     Você apertou os olhos, pensou ter ouvido alguma coisa, Mas flores não fazem som, nem vêem coisas. Dessa vez você disse em voz alta.
     E desfez seus dedos em pinça e me viu retornar à fundação. É um longo caminho do cimento ao solo. 
     O movimento me alegra. 
     Mas eu odeio seu rosto ao me ver cair. 


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Inspirado em
http://picold.tumblr.com/post/152694018386/darksilenceinsuburbia-debbie-millman-the

Sahge: não consigo comentar em seus posts, mas li aquele que me enviou, obrigada por compartilhar e diga que vai continuar escrevendo!

domingo, 4 de dezembro de 2016

Saco plástico

Se sou humano, tudo o que faço, por definição, é humano.
Por que então não me sinto uma pessoa?
O quarto uma toca para fugir do toque, o comportamento máscara de algodão doce, os homens só hostilidade. Lidar com o outro me obriga a confrontar minhas misérias e inabilidades, convivo e assusto-me fronte ao progresso adiante, feito susto adiantasse. Como todos eles construíram pontes? Sou saco plástico boiando no oceano, gritando que sou ilha: "liga-me a você!"
Nunca sou dada ouvidos.
Se sou humano, tudo o que sinto, por definição, é humano.
Por que então não me vejo convencional?
As frases falhas tentativas de fazer-me deles, aproximação plástica, plácida gritaria. Lidar com o outro me obriga a mostrar o que ainda não aprendi, brigo comigo feito um par de irmãos. Como todos eles encontraram sossego? Sou pote vazio, rachado em silêncio: "enche-me de algo!"
Mas nunca sou dada ouvidos.

Se sou humano.
Se sou humano.
Deus que me livre. 
Eu queria ter sido saco plástico.