segunda-feira, 17 de abril de 2017

Milagre surrado

Idade só é calo e
conformidade e,
conforme for, eu
vou do teu lado mas,
se melhor for,
faço-me afastado.
Formo esse fim tal
qual fosse um quadro,
pinto em carmim
um sangue abstrato.
Aprende minha dor,
aprendo teus fatos.
Pendura-te em mim e
te prego no quarto.
Para ali deixar-te,
um crucificado
atado a seus modos,
maduro e cansado.
E como de praxe,
de pranto me lavo,
de tanto que planto
sou fruto pisado.
Por fim forjo peça
de todo cuidado,
somos breve verso
fotografado. E
é de obra e de arte este
porta-retrato.

CarneOficina

Todo homem eu faço de ventre
Para ser lavada no vigésimo oitavo dia Infecunda
Insegura
Vagabunda
A secura em minha boca enquanto beijo é para irrigar outro lábio
Um menos eloquente
Insolente
Subjacente
Todo homem eu rasgo no dente

terça-feira, 14 de março de 2017

Entrevista com o Universo

    Num dia de semana, enquanto o sol brasileiro queimava minhas panturrilhas não depiladas e mal dispostas no encosto do sofá, acometeu-me, tal qual uma visão sagrada, o Universo. Ele mesmo, sem forma nem voz, tão ameno quanto insuportável. Sentou-se ao meu lado, agora não lembro se também no sofá ou na dobra interna de minha orelha, e ordenou-me fazer-lhe oito perguntas. Pediu que eu fosse pertinente e honrasse sua inusitada boa vontade, ao que confeccionei essas imbecis indagações, um pouco minhas e espero que de mais alguém, servindo o milagre para algo. Fique a par quem desejar dessa inverossímil tarde de terça-feira e sua incasualidade.

P: A vida é uma coisa boa?

R: A vida pode ser uma coisa boa. Bom e ruim são construções humanas e delas abstenho-me visto meu caráter invariavelmente neutro. Não é de importância para mim se um namoro terminou, se uma nação foi extinta ou se uma vegetal rompeu a barreira do solo. Mas há, sim, um enorme número de coisas boas sobre a vida, quando se é uma pessoa, e enxergar esse fato não é habilidade de tudo o que respira, tampouco uma obrigação.

P: Qual premissa faz com que você mantenha a Terra um planeta que existe?

R: A Terra é um planeta muito singular e defeituoso, seria uma pena vê-lo acabar a qualquer momento... (risos). A verdade é que o acaso estendeu-se por tempo o suficiente e o que agora temos é uma configuração minimamente complexa e caótica. As hierarquias e prioridades moldaram-se de tal forma, que a espécie humana julga-se acima das demais em inteligência e natureza. Drenando os recursos comunitários para poucas mãos e alienando uns aos outros através da ignorância, é depositada cada vez mais importância em detalhes desimportantes. A tecnologia faz exponencialmente mais por eles e, na contramão, o contato com o real diminui. Há também os que tentam abster-se disso tudo numa falsa moral e negam o que há de mais selvagem em si. É realmente insustentável. Mas, em suma, não há premissa. Se a Terra ainda existe é um acaso.

P: É possível reverter a miséria humana?

R: É possível passar dez minutos debaixo d'água? Eu diria que sim. Mas qualquer um sairia com vida? Seria uma experiência frutífera? A miséria humana, por penosa que seja, permeia a personalidade de todos vocês. O erro. A própria evolução vem do erro, confusões genéticas criam variação e o mais forte sobrevive. O erro fortifica e é o caminho mais seguro. É possível, porém, encaminhar essa miséria para onde mais beneficie os sistemas.

P: Conceitos como amor, arte, saudade e perversão podem ser encontrados em outro local que não a Terra?

R: Desculpe-me. Não estou apto a responder essa pergunta. Ou talvez você não esteja apto a lidar com a resposta.

P: O que é arte?

R: Falar sobre arte é como escrever sobre uma tempestade. Há muito que os termos não conseguem conter. A própria sensação, intrínseca à arte, é mais do que palavra. Dentre outras muitas coisas, arte é um modo de sobrevivência e uma obsessão inerente ao humano. Existe justa polêmica entre vocês sobre o que pode ser classificado sob a qualidade artística ou não. Se me permite, compartilho da experiência empírica minha peneira fina contra a dúvida: arte é um apanhado de atenção em meio à restante distração. A arte pode ser ou não bela, pode ser simples ou complexa, tradicional ou inventiva, de vanguarda ou nostalgia, fresca ou a mofar. O mandatório é que surta efeito motor em quem com ela interage, mesmo que uma breve, até brevíssima, percepção do arredor ou, queiramos nós, de si próprio.

P: A religião é, necessariamente, uma falsa moral?

R: Atrelar religião a qualquer adjetivo ou definição não compete a mim, que já me expliquei neutro, mas a vocês, enquanto humanidade e individualmente. Em termos simples, a religião é o que você dela faz. Parece-me que alguns anos atrás coisas fantásticas sucederam-se, e assim pôde-se documentar em livros, hoje colocados em instância máxima e quase política nas doutrinas. São esses documentos tão primitivos quanto atemporais, tal o grau de universalidade de seu conteúdo, podendo-se pensar que fossem, então, mais de expressão artística e menos de narração fiel e preocupada. Tamanho foi o impacto dessas palavras e tantos os anos até aqui, que cada homem de poder moldou o que leu para melhor organizar, lucrar, cuidar ou até calar, conforme seu julgamento. Se a religião é uma falsa moral, foram vocês que assim o fizeram.

P: Quando algo se torna real?

R: Quando alguém nele pensa.

P: Isso basta?

R: Para tornar-se real? Sim. Para tornar-se percebido, não. Talvez a pergunta seja: o que é real? Mas você já usou suas oito perguntas.




quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Humanos não falam

   Você não percebeu que eu tinha morrido.
     Embaixo da fundação eu gritei até a terra me engasgar. Mas você dormia em outro continente, não pôde ouvir.
     Pedi para as minhocas me levarem até a superfície, Ou um copo d'água já estaria ótimo, eu disse, mas elas não deram ouvidos e trocaram os pés pelas mãos – ou as mãos pelos pés? Eu de cabeça para baixo no escuro molhado.
     Com dó de mim, os fungos conversaram entre si, Façamos o que podemos, o que sabemos. Eles beberam meus mucos e ceiaram minha testa, lamberam os ossos e deixaram o coração para o fim. Essa parte está dura, eu ouvi de um deles. E pensei, Como é bom estar morta e enterrada para você. Quem de nós mais se beneficiou?
     Eles me fluidificaram e me fizeram microeu, e sem escolha fui sugada por uma raiz adjacente. Subi por túneis de seiva e miniaturas de artéria em verde claro. Obrigada, fungos, eu disse. Mas não saiu voz porque micróbios não falam.
     Depois um azul no céu se escancarou em minha frente quando desabrochei pela manhã em cinco pétalas burras. Um azul que eu reconheci em cada tom. Eu conheço toda nuance dessa paleta, azul é como uma língua nativa para mim.
     Brotei em seco e esperei a chuva.
     Mas só veio você me procurar.
     Sem saber do processo, buscou por minha forma humana e zangou-se ao encontrar sequer os restos. Depois de tantos anos, veja você, o que esperava de mim?
     Flores também não ouvem som, não vêem coisas.
     Mas o seu corpo bípede vibra unicamente, nada escapa por completo da natureza. Sei que eram seus pés e, quando você chorou, fez-me aumentar.
Você me escolheu e me colheu num impulso de misericórdia: Que florzinha insistente, você pensou alto, e eu encolhi, fraca e lilás. Só não me devore mais essa vez, já sou tóxica. E não me leve para casa, morrerei sob sua vigília num copo com água e cloro.  
     E não posso morrer de novo. Não posso morrer de novo. Não me mate sem perceber de novo.
     Você apertou os olhos, pensou ter ouvido alguma coisa, Mas flores não fazem som, nem vêem coisas. Dessa vez você disse em voz alta.
     E desfez seus dedos em pinça e me viu retornar à fundação. É um longo caminho do cimento ao solo. 
     O movimento me alegra. 
     Mas eu odeio seu rosto ao me ver cair. 


---------------------------------
Inspirado em
http://picold.tumblr.com/post/152694018386/darksilenceinsuburbia-debbie-millman-the

Sahge: não consigo comentar em seus posts, mas li aquele que me enviou, obrigada por compartilhar e diga que vai continuar escrevendo!

domingo, 4 de dezembro de 2016

Saco plástico

Se sou humano, tudo o que faço, por definição, é humano.
Por que então não me sinto uma pessoa?
O quarto uma toca para fugir do toque, o comportamento máscara de algodão doce, os homens só hostilidade. Lidar com o outro me obriga a confrontar minhas misérias e inabilidades, convivo e assusto-me fronte ao progresso adiante, feito susto adiantasse. Como todos eles construíram pontes? Sou saco plástico boiando no oceano, gritando que sou ilha: "liga-me a você!"
Nunca sou dada ouvidos.
Se sou humano, tudo o que sinto, por definição, é humano.
Por que então não me vejo convencional?
As frases falhas tentativas de fazer-me deles, aproximação plástica, plácida gritaria. Lidar com o outro me obriga a mostrar o que ainda não aprendi, brigo comigo feito um par de irmãos. Como todos eles encontraram sossego? Sou pote vazio, rachado em silêncio: "enche-me de algo!"
Mas nunca sou dada ouvidos.

Se sou humano.
Se sou humano.
Deus que me livre. 
Eu queria ter sido saco plástico.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Como desaparecer completamente

Escute conversas terríveis sem opinar enquanto sua alma é sugada.
Deliberadamente deixe mensagens fermentando 2 dias quando todo mundo sabe que você não tira a cara do celular.
Diga que vai. Não vá. Não avise.
Pegue a primeira roupa do armário para não desistir de tomar banho e diga que não se importa com o que vão pensar.
Tenha um plano A, difícil demais, desista. Tenha um plano B, comum demais, aceite.
Durma tarde. Durma pouco. Durma demais.
Furte chiclete na fila do mercado.
Assuma com orgulho que você se autossabota.
Deixe que os outros te interpretem errado, explicar dá preguiça e eles não valem a pena.
Encontre um diagnóstico para culpar suas falhas e justifique-se com ele sempre que possível.
Julgue sua própria produção e a esconda de todo mundo.
Aprenda a conviver com uma casa bagunçada.
Repita diálogos destrutivos para si mesmo numa base diária e crie subversões imaginárias. Deixe tudo se embaralhar e esqueça como as coisas realmente terminaram.
Reclame.
Invista tempo em ideias inconcebíveis e paralize-se diante do mundo real.
Seja grosseiro com quem tenta te ajudar e rasteje por quem te maltrata.
Coma fast food. Dispense o copo dágua. Fume.
Assista traços de personalidade originais te abandonarem e finja demência.
Nunca perdoe seu ex.
Reanalise até achar um motivo para dizer "não".
Acostume-se a inventar desculpas automaticamente ao invés de admitir que não quer.
Crie vícios e medos teimosos. Seja você mesmo teimoso e inflexível.
Faça mais visitas ao passado do que aos amigos.
Perca prazos e vencimentos. Culpe a rotina.
E mais importante
Deixe tudo se registrando silenciosamente, cubra com um tapete anatômico, durma e redurma em cima de frustração e não se mexa.
E não se mexa.
E não se mexa.

domingo, 2 de outubro de 2016

Até faz sentido // mas é ilógico


I'm trying to get out
Find a subtle way out
Not just cross myself out
Not just disappear
I've been trying to stay out
But there's something in you
I can't be without
I just need it here
Oh I need

New ways
To waste
My time

Porque eu não quero incomodar a sua paz.
Então eu calo.
Se essa omissão estiver fazendo casa no mais vital de mim mesma? Que azar! E sairia do quarto num tom de fatalidade, com o controle na mão (espero que ninguém veja, que eu poderia consertar tudo isso tentando do jeito certo).
Encontro mais estrada, mais sol na cara, mais noites em silêncio e progressivamente mais espaço na cama. E eu queria que isso tudo tivesse a ver com você. Sem querer, e de uma forma, não deixa de ter. A atmosfera pede em códigos para você ler, mas não: eu não sou mais inteligente que você com toda a minha poesia de segunda. Mas eu nunca disse que sou coisa alguma.
E logo você, com todo o seu domínio da língua, escolheu falar de mim (de mim?) no tom mais baixo que encontrou. 
Ficamos aqui, chutando esse corpo morto. Quem sabe ele não volta a respirar? Mas dessa vez quem mata é você, que eu não mexo um dedo a mais para me defender. No fim eu só te machuco.
Quando eu lembrava de você, era num tom brando,
era uma cortina branca, 
fina, voando janela afora de manhã: tinha uma leveza e dança, e alguma melancolia que eu não conseguia nomear, acabava por me fascinar também.
Agora tem gosto de bituca de cigarro.
Eu lembro da sua grosseria e analiso, inconclusivamente, suas acusações. Já não passou tempo o bastante? Já não crescemos um pouco? Você não estava ótima?
Me perdoe. Me perdoe.
Porque quando eu estava lembrando era você na minha frente, Macarronada Italiana com um garçom ágil demais. É você no Container desajeitada porque eu paguei a conta toda em segredo. É você falando que eu sou enorme na Estaleiro. É você furtando um colar que eu não sei tirar do pescoço na Forever 21. É sua camiseta que eu uso pra dormir. É meu diário empesteado de F. É um domingo marrento na praça da paz, com o Bento sem dar sossego. É uma porção de coisas boas, de belezas, de memórias. É princesa Jujuba e é Canadá e sou eu me rasgando toda na sua frente, eu nem ligava mais. É você falando que eu consigo, que eu tenho talento e sensibilidade.
Eu me lembro, que fui eu, porque não tinha mais eu: tinha uma forma humana vivendo no propósito de não te frustrar. Tinha um sonho sufocado. E agora, agora mesmo, enquanto eu pseudoconverso com você, tem menos ainda. 
E isso é tudo.