domingo, 23 de setembro de 2018

parque portugal

o menino que eu namorava no ensino médio é hoje amigo aos finais de semana quando saimos correndo em volta do parque com lagoa na cidade. na volta ele classifica minha troca de marcha quinta para quarta como imperceptível e digo a ele, o dia está pago. depois constatamos juntos a baixa umidade do ar. 

quando menores achávamos nada disso nos assuntos, fico perguntando sozinha do que conversávamos. não era tanto sobre comida nem empregos difíceis, parecia mais sobre coisa pior, vidas não nossas e uma vantagem no outro que não tinha par conosco. era euforia e conflito e risada e leveza e hoje é tudo isso ainda mas menos. 

somos bolsas de graça dilatante, cada vez mais fracas por esticar e crescer.

digo a ele que não aguento correr doente assim, ele daria duas vezes a volta mais longa. tusso, espirro, coço os olhos minúsculos chorando sem tristeza e ele aguenta o todo, minha lerdeza e quando falo muito e quando falo negatividades que todo mundo evita porque cada um já tem sua montanha de dores para curar. digo a ele e ele encontra um lado bom. não aguento correr seguida e penso em subida que pode ser melhor se escalarmos a montanha em lugar de tentar levá-la nas costas.

meus ombros se enrugam para cima e meus joelhos entortam para dentro. ele corre como se estivesse comendo claras em neve assadas com açúcar. fala baixo, ele fala pouco e suave. 

e foge de dentro de meu carro quando o passeio termina, deixa-me drogada com fomes. faz a semana dele, enquanto a minha some. no próximo encontro a gripe está sarada e nossos corpos irão esticar e crescer, formigar e doer, esquentar e correr.

domingo, 5 de agosto de 2018

ariana grande gostosa

ontem meu namorado que não é meu namorado chamou a ariana grande de gostosa. durante a reunião de amigos ele parou no meio, gost–. a raiva que sinto quando penso nisso é a mesma raiva que eu gostaria de ter ao acordar amanhã, segunda-feira, uma raiva que me formigasse cama afora para trabalhar e me concentrar tanto no importante que a ariana grande sumiria, minúscula. quando penso nisso é uma raiva danada. é uma raiva danada porque parou no meio, ficou palavra detida, estourou igual bexiga enchida errada: infla rápido e explode em silêncio imbecil. imagino ele dizendo um gostosa por inteiro, boca cheia e orgulhosa, gostosa. com os amigos, bebendo cerveja, gostosa. lançou a música e ela nem é tudo isso mas esse single ficou ótimo, gostosa. 
fiquei ali sem saber o que clamar. alguém riu, ele mesmo riu, como se não fosse desrespeito, comigo ou com a ariana grande. 
é difícil inspirar um homem a entender que as questões vão além dele, do pau dele, que isso está em todo lugar e há muito a perder nessa conduta. é difícil expirar. tanto é assim que fiquei preguiçosa, ou omissa – o resultado é o mesmo –, sorriso sumiu entrou no lugar um vazio triste. meu namorado que não é meu namorado perguntou se eu estava bem, que sensível, ao que lhe respondi com a cara mais amarga que a mulher consegue amenizar, tudo bem. gostosa. pediu-me que colocasse o single para tocar, neguei insistência após asfixiante insistência. 
sufocado, perdeu-se esse momento em meio a outros menos ou mais relevantes, quando voltei da cozinha munida de bolinhos de carne estilo oriental espetados em pauzinhos de madeira. o meu protagonista realçou, quantos palitinhos. respondi sem direcionar o olhar, é um para cada merda que um macho fala. alguém riu. não sei se ele riu. a carne estava gostosa.
depois só fiquei ali, longe. 
sinto não saber me colocar, não saber meu lugar. bebi e fumei meus problemas. não sei se quero um namorado que não me namore se for assim. sinceramente pouco me sinto no direito de amá-lo, já que pobremente amo a mim mesma. 
abandonei a reunião e sumi para dormir, sem boas noites educados. apenas desapareci. 
aceito ser a ciumenta. aceito ser a pelo em ovo. aceito ser a galinha. aceito ser a triste, a louca, a ingrata, a insegura. aceito o que tiver de me classificar para contar de mim quando isso acabar. aqui está, eu sou real. e eu sou imensa. 


segunda-feira, 21 de maio de 2018

lado.

sonho com um amor 
que me tome por amigo
quando eu chore me cubra
com braços e com lábios 
que não digam meu nome inteiro

sonho com um amigo
que me fale o que esqueci
e solte-me quando souber
que nos tornamos nocivos
ou menos que estranhos

sonho com um desconhecido
que oferte o familiar
comida casa e suor
que me veja maior que me penso
depois me faça enxergar

sonho com a gratidão
de lembrar do tempo
quando queria o que tenho
sem o próximo segundo
sobrar feliz






sábado, 12 de maio de 2018

autochthonous

he's been planted on the sea above tiny many stones over melted fire 
I saw him moving continents apart once 
unaware but certain
he's been held a god it might be a good thing 
to keep him here

little pieces of thinner dust such thick transparent layer of air
inhaled by breathing parts of him crumbled

turned into strange water
he's in my lungs I think I'm 

wetlands now
unaware but certain I'd like 

to keep him here

will it absorb 
or will it dissolve

I've been planted on the dry conceive of making it clean
if he asks me to seed I will take the breed
spread it open to him over riverbeds 
my current streams have ever been cursed
my current drops into the ocean

we are flume with mud and yearn
we are set to burn

terça-feira, 17 de abril de 2018

com labor, lido cru

    uma letra c que minha coluna vertebral escreve quando me sento para. escrever com o queixo colado no topo do encosto de costas da cadeira como se fosse uma letra l deitada ou. como se eu estivesse fazendo aquele exame antes de passar com o oftalmologista, a recepcionista me diz para focar no pontinho vermelho ao fim de uma pista de decolagem de avião, um desenho para elucidar o exame chato e. poderia ser que as palavras saíssem melhor se não fossem assim sempre interrompidas.
    trabalho do momento que acordo até este em que sento errado, a bacia pendendo do lado direito ao piso de madeira. se me molhar em banho agora, vou querer parar, e há muito a ser feito. cortar uma peça de bacon em pedacicos para os clientes do coquetel na joalheria morrerem mais cedo com maior coordenação motora (li na notícia que embutidos são cancerígenos depois li num livro que colesterol é amigo da função cerebral), colocar depois tirar minhas roupas coloridas da máquina de lavar na função delicada, arrumar a cozinha pela quinta vez. nunca passei tanto tempo na cozinha e é uma obsessiva construtiva compulsão. dou conta até de passar mal de fome ali porque não consigo fazer uma pausa de fazer uma comida para comer.
    o menino por quem me apaixonei está de saída. meu coração se aperta e sai chorume.
    meu segundo celular em um mês pifou e basicamente toda a minha minúscula vida profissional se organizava nele. perdendo a cabeça por um eletrônico eu percebo. como. somos de papel. abro meus livros de receita e como que numa degustação em maiúscula leio minhas letras c e l escritas com um padrão pesado em balança. ENTREMET ICKFD e depois PÃO DE LÓ ENRIQUECIDO CAMILA DUTRA. tudo o que eu tenho eu peguei de alguém e eu só posso ser uma segunda versão de uma segunda versão. esqueço que açúcar faz tão mal assim e como quase sozinha uma panela. depressão.
    focar no pontinho vermelho em cima do cupcake que é uma cereja falsa de chuchu. pesar os centilitros franceses cl cl cl cl. postura, segura a faca daquele jeito para evitar a tendinite, não pensa no menino indo embora. chorume. meu cachorro ao lado me observa como quem só quisesse estar mais perto. e estou indo para lá.


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

trancada do lado de dentro quando saio de casa

gente que vê briga em todo lugar
sou essa gente
levo a briga dentro de mim e tudo está brigando
depois tudo está pedindo desculpa
depois vem o sono
quando esqueço o que aprendi
acordo observando pela primeira vez e vem 
a briga

você já ouviu uma frase assim
     o que seria do azul sem o amarelo
uma coisa só ganha definição 
     por seu oposto
sei que faz calor pois já fez frio
sei que morrerei porque nasci e assim em diante não é necessário tornar este                                                                                estorvo a linha mais longa 
  está tudo bem
o equilíbrio está aqui
  em algum lugar
por baixo de cinquenta e dois anos de mim
quando despertarei velha e
nossa 
nem precisava de tudo isso

sento para meditar
    as costas doem, deito para meditar
sinto vergonha da cena que sou
   no pontapé dos vinte frequentando quiropraxista
deveria estar meditando mas estou pensando
   e se alguém me visse assim
mas não há absolutamente 
     (ninguém no meu quarto)
           ironicamente qualquer um que leia isso estará agora em meu quarto 
        vendo-me em posição duramente pior do que deitada
     chocando as inflamações num ovo de nervos 
   que o quiropraxista irá quebrar
e pela cabeça dele nunca passará que medito
porque sou uma mulher sou uma menina uma garota sei lá
eu sou esse troço comedido impulsivo
dolorido

reclamo que reclamo demais
peguei birra de negatividade
assim engrosso meu inimigo com ares de indiferença evoluída
  falo mal de quem fala mal 
é tão revolucionário quanto uma cadeira ao pé de uma mesa
quando vejo as palavras já saíram quando vejo 
não disse nada            
          
arrumo os dias como se fossem um cômodo
aqui, nas segundas, ficam o mercado, o combustível e uma porção de coisas que não conto          
             não por serem pessoais mas por serem completamente desinteressantes
como um curso de bolos espatulados que ando fazendo ou
             cortar o fio comprido esquecido em minha cabeça pelo cabeleireiro (caríssimo)
   nas terças, academia, ler até a página duzentos, assim em diante
além das tarefas cotidianas que todo dia se devem ter por feitas como
                                                                                                  banho                                   refeição passeio do cão rir ajudar beber água 
                                                                 fazer uma oração 
mas os dias estão fartos de mim
(rotininha)
saem voando pela janela porque preferem o sol das 19:48
deixam-me com uma luz de mentira que brilha errado
então visto-me em roupa de refletir luz ainda pior e
                        vou
                                            trancada do lado de dentro quando saio de casa

acho que preciso de mais cinquenta
  (e dois)
  (anos)
de combate comigo para perceber que
  as coisas às quais dou importância 
     não importam mais do que aquelas que ignoro
         essa metade de metade de vida
              é o lado bom de uma coisa ruim
ou o lado ruim de uma coisa boa como eu disse tanto faz
                 e vai escapar antes que eu possa segurar
          vai sair antes que eu raciocine o rastro
    antes que eu possa vencer 
vai passar


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

a dieta do pó

     que a empregada veio tem quase quinze dias, disse a mãe. você fica nesse apartamento e bem podia catar uma vassoura, o chão de casa parece o chão de um museu triste. a filha ouvia, sentada nos tacos de madeira, atirando um gato de pelúcia em miniatura para o cão tosado rente. o calor, motivo do tosado cão caro, desses que viram tapete quando esparramam para deitar, o calor engodou o cão caro de vira-lata. o calor hoje tinha misericórdia, roupa arejada bastou e queixa não serviria. 
     a filha lembrou de um professor, dono de exemplar autoconfiança e estrangeiro de são paulo, ele dizia quase toda aula, com ares de ineditismo, que em campinas para cada pessoa existe um sol. se não toda aula ele dizia, feito surpresa, em campinas cada um tem um sol para si. cá estou nesse chão e muito limpa, conversou para dentro em silêncio a filha. o cão também não nota esse dito imenso pó, tampouco se dedica ao que não lhe presta à fome. ainda para dentro pensou que no apartamento também estava a mãe, também estava a vassoura, e aquela não seria empregada se vem duas vezes em um mês, se tanto, e só quando acionada. o que não via era a mãe levantar-se, engolir a recomendação a praticá-la. se eu fosse uma bruxa inventora, concluiu, faria uma vassoura de sumir com reclamações janela afora.
     estava a filha mesmo muito limpa, cheirando a desodorantes de rasgar o céu. anos antes aprendera na escola siglas interessantes de partículas que desvirginavam o céu daqui para um céu mais distante, siglas que faziam o sol entrar com mais violência e sair com mais esforço. quero estar em são paulo, gemeu a filha de novo para dentro de si. era dos hábitos insuportáveis esse que tinha de pensar muda e sem descanso. quero estar em são paulo onde se pode dividir o sol com alguém. e precisamos ver essa bagunça fazendo aniversário no quarto do meio, rezingou a mãe.
     a filha subiu dos tacos da sala à cama do quarto. levantou-se por si mas o que sentia era uma inconsciente expulsão do convívio anterior. o cão com fome de tudo menos pó a seguiu e sentou-se amuado ao pé do móvel. pelo menos não lhe pedem para varrer, discursou motivacionalmente a filha, que do cão era mãe. após alguns segundos de confuso e engajado contato visual, ele soltou a cabeça às patas a passou a lambê-las num obcecado ritual que a filha não conseguia reprimir, pois faltava-lhe o que oferecer no lugar daquela séria tarefa. pulou da cama e posou de pé, de costas ao espelho com o pescoço torcido, espremendo as nádegas. contava os graus de suas celulites com seus furinhos cruciantes, essas porras não acabam nunca. o cão a olhou. essas porras não se dissolvem, exercito-me e cuspo o açúcar e não se dissolvem. 
     era arrastando-se pelo tempo que a filha montava sua vida. podia enxergar o mundo de um jeito realmente seu, em dados dias conseguia até não afetar-se com palavras, rejeições e redes sociais. andava por terreiros espíritas e já quase não ligava quando a mãe lhe recomendava culto menos horroroso. sabia mesmo que dentro de si era capaz de vinte vezes mais, conforme ouvira de um mark divine, que também falava que as três bases de uma vida sem preguiça eram treino, sono e alimentação. alimentava-se bem, dormia as horas que o médico falara e treinava com afinco. por que então esse insistente incompleto. de onde vem essa oscilante vontade de ora insistir, ora desistir. vou botar-me de empregada macumbeira, com minha vassoura de limpar lamúria, vou erguer-me essa bruxa inventora de minha casa, falou ao cão que em sua mudez decerto pensava suas próprias insatisfações.
     a filha pegou na vassoura porque ser como a mãe lhe dava preguiça.
     com a janela aberta a empurrar para dentro da sala um pó novo, a filha limpou os tacos de madeira. a mãe enfeitava-se para um trabalho externo, mais nobre, no quarto fechado ao lado. o sol abriu-se nas panturrilhas torneadas da filha, rasgando em sombra o contorno muscular que sabia trabalhar e sustentar-se. o sol estava ali e era só seu. um sol inteiro, só para ela. a filha, fortuitamente magnânima, varria o pó antigo. num assombro sentiu-se grata, e disse em seu pensamento silencioso, endereçado à mãe, sou-lhe muito grata por trabalhar e dar-me casa. sou-lhe muito grata por reclamar e dar-me trabalho. esparramou-se depois feito tapete com o cão engodado pelo chão limpo. ei, trocinho, a filha brincou, um dia não vai ter mais pó para varrer, porque o sol vai engolir a terra. um dia, nem dia haverá. e atravessou ali a mãe, dizendo tchau, trancando-se do lado de lá da porta. apenas depois de determinar, o quarto do meio deste final de semana não passa.